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Marcação a Mercado: por que seu título público aparece no vermelho

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Poucas coisas assustam mais um investidor iniciante do que abrir o aplicativo da corretora e encontrar rentabilidade negativa em um título do Tesouro Nacional. A reação natural é imaginar que algo deu errado, que houve um erro ou que o governo deixou de pagar.

Nada disso aconteceu. O que você está vendo é marcação a mercado, o processo de reavaliar diariamente quanto vale o seu título se ele fosse vendido hoje.

A mecânica: preço e taxa em direções opostas

Todo título de renda fixa prefixado ou híbrido promete pagar um valor definido no vencimento. Um Tesouro Prefixado, por exemplo, paga mil reais na data final, sempre. O que muda ao longo do tempo é quanto o mercado está disposto a pagar hoje por esse direito futuro.

Suponha que você comprou um título a uma taxa de 10% ao ano. Meses depois, o cenário muda e o mercado passa a exigir 13% ao ano para comprar títulos semelhantes. Ninguém vai comprar o seu papel de 10% pelo mesmo preço, pois há alternativas melhores disponíveis. Para que o seu título se torne competitivo, o preço dele precisa cair até que o comprador consiga, a partir daquele preço menor, obter os mesmos 13%.

Preço e taxa de um título são as duas pontas de uma gangorra. Quando a taxa exigida pelo mercado sobe, o preço dos títulos já emitidos cai. Quando a taxa cai, o preço sobe. É aritmética, não é sinal de problema no emissor.

Quais títulos sofrem e quais não

Título Sofre marcação relevante? Por quê
Tesouro Selic Praticamente não Acompanha a taxa diária, sem taxa travada no tempo
Tesouro Prefixado Sim, bastante Taxa fixa contratada compete com as novas taxas
Tesouro IPCA+ Sim, especialmente nos vencimentos longos Parcela de juro real é fixa e se descola do mercado
CDB pós-fixado Não, na prática Costuma ser recomprado pela curva do papel
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Preço e taxa de um título andam em direções opostas. Foto de Goran Ivos via Unsplash.

Quanto mais distante o vencimento, maior a oscilação. Um título com vencimento em 2045 reage muito mais a uma mudança de expectativa de juros do que um com vencimento em 2028, porque o efeito da taxa se acumula por muito mais tempo.

Quando a oscilação vira perda real

Somente na venda antecipada. Se você mantiver o título até o vencimento, receberá exatamente o que foi contratado na compra: a taxa prefixada acordada ou o IPCA mais a taxa real, conforme o caso. O caminho percorrido pelo preço no meio do trajeto não altera o destino.

O problema aparece quando o investidor precisa do dinheiro em um momento ruim, ou quando se assusta com o número vermelho e vende por medo. Nos dois casos, a perda que era apenas contábil se torna definitiva.

Como usar a marcação a seu favor

  • Comprar quando as taxas estão altas: travar um juro real elevado por décadas é a melhor oportunidade que o IPCA+ oferece.
  • Vender quando as taxas caem muito: a valorização do preço pode entregar, em pouco tempo, um retorno superior ao que o título pagaria em anos.
  • Casar vencimento e objetivo: a forma mais simples de neutralizar completamente o efeito.
  • Manter reserva separada: nunca depender desses títulos para despesas imprevistas.

Por que isso passou a incomodar mais

Desde 2023, a regulação passou a exigir que também os títulos de renda fixa privada negociados no mercado secundário fossem exibidos aos investidores pelo preço de mercado, e não apenas pela curva de rendimento contratada. O objetivo foi dar transparência: o investidor passa a ver quanto realmente receberia se vendesse hoje.

O efeito colateral foi um susto coletivo. Muita gente descobriu que aplicações consideradas totalmente estáveis também oscilam quando avaliadas a preço de mercado.

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A oscilação só vira prejuízo no momento da venda antecipada. Foto de Jay Gomez via Unsplash.

Perguntas Frequentes

Se eu não vender, perco alguma coisa?

Não. Mantendo o título até o vencimento, o resultado é exatamente o contratado na compra. A oscilação intermediária é informação sobre o valor de venda naquele momento, e não uma alteração no que você vai receber no fim.

Devo aproveitar a queda de preço para comprar mais?

Preço menor significa taxa maior, e taxa maior é vantajosa para quem está comprando. Se o título continua adequado ao seu objetivo e prazo, aumentar posição em momentos de taxa elevada tende a melhorar o retorno da carteira. O cuidado é não concentrar tudo em um único vencimento longo.

O Tesouro Selic também pode ficar negativo?

Pode apresentar variações mínimas em situações de estresse de liquidez no mercado, mas a magnitude é muito pequena e passageira. Por acompanhar a taxa diária, ele não carrega uma taxa travada que se descole do cenário, o que é justamente o que provoca a oscilação nos outros títulos.

Marcação a mercado existe em fundos de renda fixa?

Sim, e é por isso que fundos de renda fixa de prazo longo podem apresentar cotas em queda. O investidor sente o efeito de forma indireta, através da variação da cota, sem ter controle sobre o momento de venda dos ativos, que é decisão do gestor.

Foto de perfil de Rodrigo Antunes
Sobre o autor

Rodrigo Antunes

Analista de investimentos e educador financeiro com mais de 10 anos de experiência no mercado de capitais brasileiro. Especialista em renda fixa, fundos imobiliários e planejamento financeiro pessoal, dedica-se a traduzir o vocabulário do mercado para quem está começando a investir. Editor-chefe do Investidor na Prática.

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